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Dialetrando
- 21/06 |
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Helder
Bentes |
Sobre José Saramago
Helder Bentes

Semana passada o mundo ficou muito mais pobre. Perdemos um dos melhores escritores contemporâneos: o português José Saramago. Não vou aqui fazer eco a tudo o que já foi dito sobre Saramago. Até porque artistas da palavra deixam um legado garantido pela atemporalidade e durabilidade da escrita através dos séculos e, como Saramago era um gênio, a escrita foi apenas o suporte dessa genialidade e, lógico que a imprensa mundial fez barulho por ocasião de sua morte e o fará através dos anos. Assim esperamos!
Hoje a tecnologia digital nos proporciona recursos que facilitam o acesso à informação e à apreciação de grandes obras de literatura. Há livros em áudio, vídeo, etc.. São vários tipos de mídia a serviço da informação e da arte. Considero a edição de livros em suportes alternativos de mídia uma iniciativa louvável, sobretudo para portadores de necessidades especiais. Mas ainda defendo o livro impresso, concreto, palpável, manuseável, aquele com cheirinho de novo, recém-saído da gráfica e que muita gente tem preguiça de ler ao ver o tamanho. É esta a verdadeira leitura contemplativa, que estimula a imaginação e que mexe com a memória, a inteligência, a vontade e até a afetividade do leitor.
Como autor privilegiado pela era digital, Saramago não morreu sem ver sua obra adaptada para o cinema. Inspirado em sua prosa literária, Ensaio sobre a cegueira é um drama de 117 min. ao qual o crítico James Christopher, do jornal britânico The Times, referiu-se como "deprimente". Na verdade, este crítico foi infeliz ao esperar que uma obra literária transportada para a linguagem imagética imprimisse no espectador o mesmo efeito da literatura sobre o leitor. Nada a ver. Cada tipo de arte tem suas próprias leis.
Dirigido por Fernando Meirelles, o filme sustenta-se numa epidemia de cegueira que assola uma cidade. A ausência de porquês e do espaço onde se passa o enredo é a imagem da "cegueira branca" ou da única superfície visível para as personagens infectadas. Aos poucos todos ficam cegos e sobrevivem à custa da exposição de seus instintos primários.
No enredo, tudo é simbólico: o primeiro homem a ser vitimado pela doença no trânsito, o modo de como a epidemia espalha-se, a quarentena em que os infectados são colocados, a falha dos serviços estaduais, a única pessoa que não é atingida pela epidemia e os internos que tentam resgatar a humanidade perdida. O desvendar desses símbolos culmina na decadência da vida social, com a perda da noção de civilização.
A cegueira faz as personagens enxergarem o que se pode ver só quando se está cego: a sobrevivência dos cegos, de suas emoções e de sua dignidade. É uma lição para quem olha sem reparar no outro. Uma proposta de (re)humanização do indivíduo a partir do olhar para o outro.
Se alguém quiser ler outra obra de Saramago não muito alardeada pelos meios de comunicação, sugiro As intermitências da morte. Só um gênio poderia mostrar, na literatura, que o objeto do maior de todos os medos humanos é, na verdade, necessário. Não consigo ver necessidade na morte de Saramago, ainda mais para países de Língua Portuguesa, mas quem sabe o futuro não nos revelará um supra-saramago?
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Indicação de leitura:
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O
Estrangeiro, de Albert Camus
"Quando nos
vestimos na praia, Marie olhava-me
com olhos brilhantes. Beijei-a. A
partir desse momento, não falamos
mais. Apertei-a contra mim, e tivemos
pressa de encontrar um ônibus,
de voltar, de ir para a minha casa
e de nos atirarmos na minha cama.
Tinha deixado a janela aberta, e era
bom sentir a noite de verão
escorrer por nossos corpos bronzeados".
Este é um pequeno trecho do
romance O Estrangeiro, em que o escritor
francês Albert Camus mostra
como se pode restabelecer os limites
entre realidade e fantasia a partir
da constatação de que
a vida não é tão
mutável quanto somos induzidos
a crer, que o tédio é
uma realidade tanto quanto o é
a recordação e que transformar
o tédio em boa recordação
é uma iniciativa do eu porque
"um homem que houvesse vivido
um único dia, poderia sem dificuldade
passar 100 anos numa prisão.
Teria recordações suficientes
para não se entediar".
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Sobre o colunista... |
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Foto por: Octavio Cardoso |
Helder Bentes
Professor, Crítico de Arte e Produtor Cultural. Tem formação acadêmica na área de Letras e Artes, estudou Jornalismo e faz Mestrado em Literatura. É Pesquisador nas áreas de Educação e de Ciências da Linguagem e suas Tecnologias. |
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